Apontamentos sobre a epidemia em curso

Desde Facção Fictícia

Traduzimos e divulgamos aqui o texto feito no calor do momento pelos companheiros anarquistas de Torino, Itália.

 Publicado originalmente no site Macerie

O texto que segue foi escrito por alguns companheiros, em parte redatores do blog e em parte não, na tentativa de entender como se orientar no meio desta tempestade.

Estes dias, forçadamente fechados em casa, parece-nos uma ótima ocasião para tentar refletir e deixar registradas algumas considerações sobre o que está acontecendo, sobre os possíveis cenários que se abrirão e, enquanto companheiros, em que sentido será o caso de dirigir a nossa atenção.

Os apontamentos que seguem são algumas considerações imediatas sobre as quais tentaremos retornar e continuar a refletir nos próximos tempos, e não têm nenhuma pretensão de exaustividade.

Um esclarecimento inicial sobre as muitas vozes que tendem a minimizar esta epidemia nos parece devido. Não somos médicos nem enfermeiros, mas, na nossa visão, o absurdo de tal posição pode ser contestado no âmbito da teoria revolucionária. Quem se propõe, como objetivo de vida, a mudar radicalmente o presente deveria ser o primeiro a saber que da relação entre Capital e Natureza nascem inevitavelmente tragédias e catástrofes que, ao contrário do que diz a narrativa dominante, não têm nada de “natural”, que não são eventos improváveis, mas que, dependendo do período, eles têm certa frequência, como as crises econômicas. Terremotos em zonas populosas, desertificação, poluição dos lençóis freáticos, alagamentos e epidemias são fenômenos filhos dessa mesma lógica. A epidemia com a qual nos deparamos, com todas as suas especificidades, não nos parece que seja de natureza diferente desta série de catástrofes produzidas pelo regime capitalista. Especificidades que, naturalmente, não são negligenciáveis e sobre as quais valerá a pena debruçar-se no decorrer destas linhas.

AS ORIGENS

A doença se desenvolveu no mercado de Wuhan, capital de Hubei, uma das regiões mais populosas da China. Região que se tornou a fornalha do país: aqui está o coração pulsante feito de reatores químicos e fábricas de cimento que sustentaram o crescimento industrial do gigante asiático. A grande quantidade de material de construção e a formação de engenheiros qualificados de que a região é o berço ampararam todo o período pós-crise de 2008: o Estado chinês, de fato, lançou naqueles anos imponentes projetos infra estruturais e imobiliários.

A assistência médica em toda a China é praticamente inexistente, uma grandíssima quantidade de operários provenientes de outras regiões são ilegais no lugar onde trabalham (pelo diabólico sistema do hukou) e vivem em uma condição de semiclandestinidade e sem nenhuma tutela. É importante sublinhar que esta situação é estrutural e não devida a dureza específica dos governantes em um momento ou outro. Como já evidenciamos em outros escritos, o fim das políticas keynesianas tem, como uma de suas explicações, a diminuição dos ganhos globais, fenômeno acentuado com a recessão que começou em 2008. Um estudo publicado em um interessante artigo do blog Chuang – cuja leitura aconselhamos – evidencia que, na região de Dongguan, caso as empresas tivessem que se responsabilizar pela cobertura médica da própria força de trabalho, perderiam a metade dos lucros e deveriam transferir a produção para outro lugar.

A concentração da população em lugares pouco saudáveis e lotados assim como a impossibilidade de ter acesso a um sistema de saúde decente contribuíram ao famoso salto de espécie do Covid-19. Vários estudos afirmam que as passagens de formas virais de animais para humanos serão, no futuro, sempre mais prováveis e, podemos acrescentar, sempre mais letais.

O CHOQUE

A China, seguida da Itália e agora de vários países, respondeu a esta pandemia colocando em quarentena toda a população. Os efeitos e o impacto sobre as economias nacionais e mundial destas medidas são ainda matéria de debate. Os jornais publicaram imagens impressionantes de satélite com as emissões de CO2, tiradas antes e depois da paralisação da maior parte das atividades na China, das quais é possível obter o dado de que mesmo por “apenas” um mês o gigante asiático ficou quase completamente parado. O que significa o bloqueio da economia que, de fato, tirou o mundo da areia movediça da recessão não está claro.

Com certeza, os bancos centrais chegam a este choque, que muitas pessoas comparam à explosão da bolha dos empréstimos subprime, sem fôlego. Dez anos de liquidez introduzida forçadamente nos mercados nacionais e taxas de interesse mantidas constantemente baixas para manter em vida o moribundo sistema financeiro deixam poucas margens de manobras adicionais. Uma confirmação é a reação dos mercados, um tombo histórico para a bolsa de valores de Milão (Piazza Affari) após as palavras que deveriam ter sido asseguradoras e reconfortantes da nova presidente do Banco Central Europeu, Lagarde, em 12 de março.

Certamente é necessário tomar cuidado com à interpretação dos sobressaltos do mundo financeiro que, na maioria dos casos, são resultados de manobras especulativas; mas não nos parece descabido prever que muitas economias nacionais sairão de joelhos destes meses de quarentena: muitas empresas poderão ter que fechar e muitas das quais sobreviverão deverão enfrentar uma profunda reestruturação em vários níveis. Tudo leva a crer que esta crise será a causa, e também a oportunidade, com os tempos devidos, para uma reestruturação da economia no sentido de uma ainda maior automação, e com tudo o que isso implica em termos de emprego, condições de trabalho e concentração de capital.

NA ITÁLIA

Desde o dia 10 de março aqui na Itália vigora uma espécie de toque de recolher. Todas as lojas estão fechadas, funcionando apenas supermercados, tabacarias, lojas de ferramentas, fábricas, serviços essenciais (exemplo: coleta do lixo e transporte público) e pouco mais.

O governo Conte, sustentado pela Europa que está concedendo muito em termos de déficit, vem legislando de modo irrefreado para remendar esta situação de paralisação forçada: o plano é recuperar mais liquidez possível e fazê-la chegar do alto, em cascata, sobre as empresas. Financiamentos especiais, fundo para empréstimos especiais e amortizações parecem ser uma parte da solução. Quase todos concordam que os fundos serão insuficientes. A realidade produtiva italiana é constelada de muitas empresas pequenas e médias cuja baixa rentabilidade desde há, pelo menos, uma década e cujo alto endividamento sugere, como dizíamos, que a consequência à pandemia, em termos de empresas fechadas e vagas de trabalho perdidas, poderia ser violentíssima.

No que diz respeito aos trabalhadores, estão disponibilizando uma série de auxílios sociais: seguro-desemprego por três meses, a suspensão do pagamento de empréstimos e boletos para as pessoas que foram demitidas e suspensão de alguns impostos municipais. Medidas que parecem insuficientes sob múltiplos pontos de vista.

O contexto do trabalho italiano é constituído, em grande parte, por contratos chamados atípicos: para as chamadas “pessoas jurídicas” e os “falsos trabalhadores autônomos”, o governo está trabalhando em um reembolso de apenas quinhentos euros por três meses; qual será o destino de quem tem um contrato de trabalho intermitente ou de quem trabalha completamente sem contrato não é possível saber. Fala-se genericamente de incentivos para aluguéis, mas também neste caso vinculados a quem possa demonstrar ter ficado em casa por conta da crise sanitária. Milhares de trabalhadores estão parados desde o mês de março, sem receber dinheiro, e com despesas que em breve serão insustentáveis.

Um discurso a parte mereceriam aqueles que, por outro lado, são obrigados a trabalhar apesar da emergência sanitária.

Enfermeiros e agentes sanitários são submetidos a grande pressão: uma parte é coagida a cumprir turnos massacrantes enquanto outra, que originariamente trabalhou em alas fechadas de hospitais devido à emergência, agora é posta em licença forçada. Sem contar que, do ponto de vista do controle de gastos, hospitais e cooperativas dispõem de poucas reservas de luvas e máscaras e, muitas vezes, o uso do material é desincentivado ou totalmente proibido.

Os trabalhadores de fábricas ou de setores estratégicos são enviados em campo sem a proteção mínima necessária ou direito a uma indenização contratual. Em um clima particularmente sombrio devido à proibição de aglomeração e, portanto, de greves “ativas”, existem, no entanto, muitos locais de produção onde os trabalhadores decidiram cruzar os braços, de tal modo que os sindicatos foram forçados a pressionar o governo para que haja uma conversa com as partes envolvidas. Após esta reunião, o encerramento das fábricas foi formalizado por alguns dias para permitir a reorganização dos espaços de acordo com o decreto e a compra de proteções individuais para os trabalhadores.

O quadro delineado para o futuro parece particularmente obscuro em um horizonte que vai muito além da contingência do coronavírus. Nos discursos feitos continuamente pelo primeiro ministro Conte, há referências contínuas à unidade nacional, à Itália, que unida, superará este momento. Nada mais falso. É verdade que o vírus está afetando a todos, mas as consequências, tanto de saúde quanto econômicas, serão vividas de maneira diferente: quem acumulou reservas nos últimos anos poderá seguir em frente e quem viveu apenas do seu salário será forçado a fazer enormes sacrifícios. As mortes por Covid-19 poderiam ter uma conotação não só de idade, mas também de classe: a feroz privatização do setor de saúde realizada durante vários anos levou à perda de muitas camas de terapia intensiva e imaginamos que aqueles que podem pagar já estão recorrendo a clínicas privadas e quarentenas mais ou menos douradas, sem falar de todas as outras doenças que, atualmente, não recebem nenhum tratamento, porque a atenção é toda voltada ao coronavírus, a menos que se possa ter acesso a instalações privadas.

Um jogo fundamental o Estado deverá jogar a um nível ideológico. O executivo liderado por Conte, após os erros iniciais, parece ter recuperado a bússola da governabilidade e estas medidas extremas de quarentena, sob modelo chinês, parecem encontrar consenso na população. As medidas econômicas, por mais insuficientes que sejam, serão provavelmente bem-vindas por aqueles que acreditam ter um pouco mais de espaço para respirar. Mas esta ajuda custará caro, difícil, deste ponto de vista, delinear cenários precisos: se a Europa exigirá tudo de volta com interesses e uma série de políticas de feroz austeridade e um memorando de lágrimas e sangue, ao estilo grego, por assim dizer, tudo isso recairá sobre a Itália; ou se, por outro lado, esta crise fará com que a Europa vacile definitivamente ao ponto de redesenhar, de modo substancial, seus contornos e equilíbrios.

FACHADAS E ESTEIRAS

Se agora voltamos nossa atenção àqueles companheiros e companheiras que, há tempos, decidiram lutar contra o Estado e o sistema capitalista em que vivemos, não podemos senão que iniciar com uma dura autocrítica: esta crise nos pega despreparados.

Despreparados sob múltiplos pontos de vista, e partiremos, portanto, deles para compreender como tentar remediar a situação ou, quanto menos, recuperar o terreno perdido e entender se teremos capacidade de intervenção quando o descontentamento generalizado se transformar em raiva e depois em ação. Despreparados não apenas por conta dos nossos limites e da nossa incapacidade, mas também devido a um escasso nível de conflito social difundido entre as camadas exploradas da população, que certamente influenciou a possibilidade de intervenção dos companheiros de luta. Dificuldades causadas também pelo trabalho ideológico operado pelo Estado na década seguinte à crise de 2008, da sua capacidade de fazer aceitar condições de exploração sempre mais duras e das medidas repressivas colocadas em ação de tempos em tempos. Tais dificuldades criaram poucas ocasiões de debate e conflito, além de limitarem a osmose entre revolucionários e parte do proletariado disposta a lutar.

Mas, como acontece com frequência, cada crise gera processos de aceleração, tanto nas condições materiais de vida quanto na percepção das pessoas que estão a nosso redor, de modo que somos levados a pensar que nem tudo está perdido… ao contrário. E que devemos arregaçar as mangas antes que seja tarde demais. Primeiro passo e objetivo mínimo a ser perseguido é sair da fase emergencial (se é que podemos falar propriamente de saída) com uma boa compreensão do fenômeno que está se desenrolando e dos desafios que se interpõem.

Também para nós, especificamente em nossa cidade, não foi fácil entender rapidamente o que estava acontecendo. Quão perigoso é este vírus? Como este perigo é ligado às características estruturais do sistema sanitário e do sistema socioeconômico que o sustenta? Como se desenvolverá o fenômeno ao redor? Que medidas tomará o Estado?

Não escondemos que, nas duas primeiras semanas, seguimos os eventos, forçados a rever nossas ideias e a esboçar propostas todos os dias, sem conseguir muito. A reação que depois teve nas prisões perturbou todos os planos, mostrando talvez, em seu ponto mais profundo, nossa inadequação à situação, à capacidade de responder aos eventos e a apoiar o que estava acontecendo.

É indiscutível que os efeitos da epidemia estão estreitamente ligados a uma vida em cidades sempre mais lotadas e a um sistema de saúde voltado cada vez mais a outros objetivos que não ao cuidado das classes exploradas. Que a epidemia exista também é indiscutível. É, no mínimo, ingênuo, ou melhor, irresponsável, realizar um plano de confronto, um discurso ou propostas de luta que não levem em conta o perigo real do contágio. Pensar que podemos dar um panfleto a um senhor de 70 anos que vive ao lado sem as devidas precauções, arriscando contagiá-lo, não é aceitável. Do mesmo modo, pensar em propor uma assembleia no bairro para discutir formas de lidar com os problemas econômicos, sem pensar na especificidade, não apenas jurídica, do momento, seria imprudente.

Obviamente, é também tarefa dos companheiros não ceder à paranoia generalizada e se empenhar em uma análise ponderada e específica dos eventos para transmitir àqueles que estão a nosso redor. Análise que tem suas dificuldades intrínsecas devido à complexidade do fenômeno, que certamente não é assimilável, por exemplo, ao estudo sobre as políticas de habitação popular de uma cidade, ao nível de militarização de uma nação ou aos efeitos danosos de uma grande obra a determinado território. Análise que se torna ainda mais difícil pelo fato de que o detentor de dados e de informações, assim como o proponente das decisões que orientam os critérios (pense, por exemplo, no critério de quantos testes realizar e em quem) é o Estado com seus institutos de pesquisa.

Permitam-nos agora uma breve digressão para tentarmos focalizar o problema. Talvez possamos dizer que no âmbito do debate “de movimento” as leituras e posições são esmagadas em dois polos discursivos. Por um lado, uma tentativa de minimizar, quando não negar, a gravidade da situação, por outro, uma tentativa que opera na lógica da razão do Estado, com sua retórica sobre a emergência a que tudo deve estar subordinado. Uma polarização que vem de longe e, certamente, não é produto da atual epidemia, embora essa só a torne mais óbvia. Uma polarização que diz respeito a uma grande parte da atividade e da produção teórica revolucionária, pelo menos nesta época, e que oscila entre 1) a possibilidade de vislumbrar e tentar enveredar por um caminho autônomo em relação ao sistema capitalista e 2) a exigência de fazer frente a uma série de necessidades pelas quais, enquanto não se realize um processo revolucionário, não é possível prescindir deste sistema. Um contraste, portanto, entre a necessidade de lutar para obter e arrancar, ainda que dentro desta ordem de coisas, aquilo que nos serve para viver da melhor maneira possível e aquilo de tentar compreender, no entanto, quais percursos de autonomia são “construíveis” à medida que as lutas crescem e se difundem. Caminhos de autonomia em que os aspectos materiais e teórico-imaginativos deveriam se entrelaçar e se autoalimentar.

Em geral, ou se tende a ser esmagado pelo polo da necessidade, tornando-se mais realista do rei, e na melhor das hipóteses invocando um “retorno ao passado” em que o welfare state “funcionava melhor”, ou se fala irrefletidamente de autonomia e do desconhecido sem levar minimamente em consideração a esfera da necessidade que, pequeno problema, é aquela graças a qual se pode viver. Assim nos esquecemos que a condição para que possamos chegar a viver em um mundo de livres e iguais é aquela, trivialmente, de poder viver. Uma questão que vem à tona com extrema clareza em uma situação como a atual, em que os problemas tendem a emergir nus e crus, sem o habitual verniz que os revertem, pelo menos neste canto do mundo. A menos que se negue a gravidade sanitária atual ou se hipotetize que, fatalmente, dadas as condições atuais, não há mais nada a fazer senão aceitar morrer de capitalismo – porque é disso que se trataria –, deveríamos nos esforçar para elaborar e sustentar, na prática, um discurso que vise salvaguardar nossa saúde e a de outros, levando em conta as necessidades sanitárias, sem nos deixarmos dominar pela razão do Estado. Compreendemos que esta afirmação parece pouco mais que um slogan, seguramente mais simples de dizer que de fazer, ou mesmo ser refletida em modo adequado. Mas não há nada de simples nesta ordem de problemas, e as dificuldades estruturais que estamos enfrentando devem ser explicitadas e nos acompanhar a cada passo em nossas ações e reflexões. A questão não é, evidentemente, aceitar de alguma forma a razão do Estado com sua lógica emergencial, útil para regular a população, criar obstáculos e se preparar preventivamente ao surgimento de descontentamentos e conflitos, além de ser um importante experimento do qual as autoridades, certamente, tentarão extrair ensinamentos no futuro. Não é necessário prever uma situação distópica, de total normalização das atuais medidas de contenção a partir de depois de amanhã, para entender a gravidade da questão. Por outro lado, é de anteontem, ou melhor, há décadas, que os Estados se esforçam para estudar técnicas de contra insurgência e de gestão militar das crises de vários tipos. Por exemplo, é possível que a contraparte aproveitará esta situação para relançar o 5G (apelando e legitimando-se, ainda que apenas como imaginário, para uma gestão da epidemia ao estilo coreano) ou para aplicar um toque de recolher atenuado em outras situações críticas.

Tal lógica emergencial responde, porém, a uma inegável exigência de conter os contágios e é esta a profunda diferença entre a situação atual e outras situações de emergência social ou de catástrofes ligadas a fenômenos, por assim dizer, naturais. Negligenciar ou minimizar este dado, ou fingir esquecê-lo, certamente não reforçará nossa capacidade de criticar e combater os dispositivos e o processo de autolegitimação realizado pelas autoridades. Seria interessante, por exemplo, ver que crítica podemos fazer a uma estratégia como a do Reino Unido para criar a chamada imunidade de rebanho

A crítica e a oposição ao, assim dito, estado de emergência devem ser, pelo menos, complementares a um discurso e a lutas que consigam colocar no centro do problema as vergonhosas políticas sanitárias, guiadas pela lógica feroz do lucro que, cada vez mais ao longo dos anos e sobretudo agora, tornam a possibilidade de tratamento para aqueles que não dispõem de certos recursos econômicos um luxo extremamente seletivo. Isto certamente não significa reivindicar o papel e a lógica da saúde pública como objetivo final pelo qual se deve lutar, mas a luta para viver livre, repetimos, passa pela possibilidade de viver e as reestruturações no campo da saúde têm sido, e continuam a ser, verdadeiros atos de guerra contra tantas e tantos explorados. Uma carência na possibilidade de tratamento que, em um mundo como o capitalista, estruturalmente hostil a qualquer forma de autonomia, equivale a verdadeiras sentenças de morte, para além do Covid-19. Lutar para expandir estas possibilidades, em paralelo com a construção de um conhecimento e de lógicas diferentes em relação ao sistema de saúde público, representa uma peça fundamental para a perspectiva revolucionária que não quer opor ideologicamente liberdade e necessidade de vida. Como articular propostas concretas é um problema que, seguramente, vai além deste breve texto e, pelo menos no momento, das habilidades e experiências de seus autores. Aprenderemos a fazê-lo, se é que aprenderemos, fazendo-o e pensando criticamente nas lutas que seremos capazes de construir.

Buscar, na medida do possível, analisar corretamente o fenômeno tem repercussões tanto éticas quanto estratégicas: por um lado, não podemos arriscar colocar em perigo outras pessoas e possíveis cúmplices diante do risco de contágio. Nós, companheiros, que já somos poucos e com energia escassa, não podemos adoecer. Não podem adoecer e morrer os nossos possíveis cúmplices… que adoeçam os ricos, os governantes e os patrões, pelo menos. Por outro lado, devemos compreender como a situação irá evoluir e os cenários prováveis.

Seguramente não podemos nos permitir esperar, porque, apesar do mais aproximativo determinismo ou mesmo querendo imaginar uma garantida catástrofe que se posiciona diante de nós, o ponto é como transformar a catástrofe em revolução.

LUTAR… COMO

Retomando o assunto das faltas, não podemos deixar de notar uma lacuna na nossa relação com as e os explorados que vivem ao nosso redor. Algumas coisas que deveriam ser nossa base de intervenção resultam, de antemão, difíceis: criar relações de solidariedade com as pessoas mais afetadas pelos impactos sociais e materiais, evitando algumas imposições idiotas do governo e a dependência em relação ao aparelho de controle estatal; contrastar a narrativa dominante e revelar os efeitos futuros na qualidade de vida; tentar partilhar com os e os proletários imigrantes ferramentas para compreender o fenômeno do vírus e as jogadas do Estado; ajudar a compreender o tipo de repressão executado e como combatê-lo (considerar a extensa aplicação do artigo 650 do código penal italiano). Que as medidas sociais postas em prática serão dirigidas apenas à parte mais remediável da população é certo, mas também a narrativa praticada até o momento denota uma certa seleção diante do próprio contágio: grande parte das e dos imigrantes explorados, que não conhecem bem a língua italiana, têm sérias dificuldades a entender qualquer coisa, nem que seja como usar bem a máscara ou as luvas.

Também aqui, é preciso aproveitar os sinais que uma situação de crise traz consigo e enveredar por este processo de aceleração, tentando encontrar, em breve, com muitas mais pessoas que nossas lutas específicas tenham sido capazes de fazer nos últimos tempos. Deficiências que, talvez, não poderão ser preenchidas inteiramente. Ao mesmo tempo, entender se e como reencontrar aquelas pessoas com as quais dividimos um momento de luta, ou com quem ainda a dividimos. Por exemplo, se as lutas nos centros de detenção para imigrantes não tivessem recuado e se não tivessem tomado os celulares dos “encarcerados”, talvez aquele tivesse sido um outro campo de batalha semelhante às prisões, mas com mais possibilidades de interação.

Se quiséssemos olhar para os desafios que enfrentamos, mesmo com um foco temporal, deveríamos começar a imaginar o que fazer na fase de saída desta emergência sanitária (se e quando haverá), e os impactos sociais que ela trará… ainda mais com a possibilidade de voltar às ruas. Não se moverá uma folha e todos estarão felizes pelo retorno à normalidade ao grito de “RinascItalia” (Renascitália)? Haverá pelo contrário uma catástrofe tal que canalizará uma furiosa raiva coletiva? Iniciarão uma série de conflitos em áreas específicas da sociedade (trabalhadores de restaurantes, da saúde, desempregados, pessoas com doenças agravadas pelo coronavírus, a luta para não pagar os gastos, etc.)? Aqui também recomeçamos pelas falhas.

De forma geral, nas várias zonas da Itália, desenvolvemos, ao longo dos anos, estudos e pesquisas em vários âmbitos que compõem esta sociedade, dedicados à produção e reprodução do sistema capitalista. Muitas vezes com a ideia de extrair qualquer análise que orientasse e iluminasse as propostas de luta e ação. E, no entanto, pelo menos para quem escreve, se a emergência terminasse agora e se criasse, por exemplo, uma concentração de pedidos de exames médicos suspensos, durante a emergência, com o risco de que as pessoas em situações mais urgentes precisem recorrer ao dispendioso sistema de saúde privado, saberíamos frente a qual oficina ir para protestar? Indicar detalhadamente os responsáveis, de décadas e séculos, por esta condição? É necessário preencher estas questões com estudo e observação, mas também com uma troca com os possíveis companheiros que conheceremos. Nós mesmos, de qualquer forma, estamos imersos na sociedade e sofremos a exploração que ela traz consigo. No trabalho, entre os vizinhos do condomínio, amigas e amigos estudantes, familiares fechados nas zonas vermelhas e com lugares na UTI esgotados. Talvez já conheçamos os possíveis companheiros.

Alguns problemas imediatos afetarão in primis a saúde das pessoas e revelarão imediatamente uma questão de classe: o que acontecerá com todas as doenças crônicas que, nesta situação de crise e carência de tratamento, terão se agravado? Que benefícios desfrutará o sistema de saúde privado devido ao desvio de uma parte das visitas atrasadas para suas clínicas a pagamento? Como os trabalhadores da saúde, há tempos obrigados a condições contratuais degradantes e a turnos de trabalho massacrantes, e cuja saída das circunstâncias atuais será muito mais longa, sairão efetivamente dessa crise sanitária?

Acostumados, ao longo dos anos, às pancadas repressivas, às dificuldades do conflito social, ao lado parcial da luta, corremos o risco de perder o impulso imaginativo e utópico. Um impulso que deve ser capaz de desenhar mundos ideais livres do capitalismo, mas lançar o coração além do obstáculo da resignação. E pensar grande.

Um olhar que, para atravessar diretamente o problema, oscila entre a capacidade de ataque e a autogestão das reservas na reprodução da vida em um processo insurrecional, além de suas modalidades organizativas. Porque se consideramos que, na base da crise coronavirus, está o mundo capitalista enquanto tal, se reafirmamos que possibilidades estão surgindo, para muitas pessoas, de conquistar essa consciência através de uma luta dura, então a dimensão é radical.

Nos limitaremos a “incitar” ou apoiar as manifestações de rua e seu nível de conflito, ou vamos, ao mesmo tempo, colocar-nos a questão de como nos virar, de como continuar a cuidar de nós mesmos sem reproduzir o modelo orientado ao lucro, de como usar os terrenos e os espaços agrícolas para produzir alimento? Como poderemos nos defender dos ataques da outra parte contra um território, ainda que parcial, em tumulto? Como dialogar com outros territórios distantes do nosso? Além disso, se cortam a água e a eletricidade de um setor da prisão em rebelião, por que não deveriam fazer o mesmo com todo um bairro?

Aqui a vertigem se insinua com força, melhor refletir mais. Esperamos apenas que estes argumentos parciais possam orientar o debate que está por vir.

Torino, 16 de março de 2020.

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